domingo, 24 de novembro de 2013

movimento artístico religioso*

Admirável mundo novo. Para alguns é o nome de um livro. Para mim é uma mistura de tambores, ritmo, natureza, mitologia, ritual e dança: Candomblé. Conheci a religião de matriz africana ainda no primeiro ano de faculdade. Eu tinha todos os medos e preconceitos que a sociedade queria que eu tivesse. Mas, por curiosidade (ou profissionalismo), resolvi conhecer. Deparei-me com um espetáculo!

Cada orixá possui um figurino mais lindo que o outro, cada um deles possui uma história e uma função, uma música e uma batida perfeita. Eles usam a música e os movimentos para contar sua trajetória, mostrar seu caráter e assim, com o corpo daqueles que gentilmente os recebem, criam água, vento, peixes. Caçam, amam, lutam.

Meu preferido é o Obaluaê. Senhor da terra, da cura de doenças, da passagem de um plano para outro. Ele dança com o corpo coberto de palha da costa. Algumas lendas dizem que é para esconder suas chagas de varíola. Eu acredito em sua beleza estonteante, e aposto que a palha só está ali porque não se pode olhar de frente o próprio brilho do sol. Seu grito é tenebroso e sombrio, mas basta um abraço neste senhor para sentir sua vibração bondosa e paterna. E como vibra!!!

Suas coreografias estão longe de ser enérgicas como as de Ogum ou charmosas como de Oxum. Obaluaê é mais contido, calmo, sereno, como se calculasse cada um de seus movimentos, reflexos, talvez, de toda a rejeição que sofreu. Foi abandonado por sua mãe, Nanã, devido à sua doença, e já foi impedido de entrar em uma festa onde dançavam todos os orixás. Sua postura é levemente inclinada para frente, como se tentasse esconder suas feridas. Curvado como um velho, parece que dança cavando a terra. Apesar de certa lentidão durante todos os seus atos, a apoteose de sua apresentação acontece quando ele começa a pular com uma perna só (a outra permanece dobrada) cruzando os braços em xis acima da cabeça, único momento em que sua coluna fica totalmente ereta. Ninguém nunca me explicou o que significa esse movimento, então eu finjo que é manifestação de sua felicidade quando Iansã transformou suas feridas em pipoca e Obaluaê se tornou um belo homem. Mas é só uma hipótese.

Estou longe de entender o que significa cada dança dos orixás. Porém, tenho certeza de que nenhum de seus movimentos é em vão. O corpo fala, seus gestos explicam suas histórias. Com essa imagem gostaria de despertar a curiosidade dos amantes da dança para acompanharem uma festa de Candomblé. É música e energia a noite inteira! É linda a relação do Candomblé com a dança. Sem dança não existe essa religião. Só não se assuste se tudo começar a ficar sombrio e embaçado em volta do Obaluaê. O brilho é todo e só dele quando está presente. Também aviso que é quase impossível ficar parado, porque o som dos atabaques entra no sangue como que por difusão. O samba só pode ter vindo daí, só pode!

Enquanto a dança clássica ocidental exige pontas como que para alcançar um outro mundo, o orixá dança descalço, a fim de absorver toda a energia que emana da terra. Os pés nus denunciam uma vontade de viver a vida agora, exatamente naquele lugar. Atotô!

* contribuição para o maravilhoso espaço http://forummovimente.blogspot.com.br/ (em dez/2011)

quinta-feira, 14 de março de 2013

organizei o tempo que restou

Ele me beijou e saiu. Fui até a sacada. Lá embaixo o motoqueiro ia pela sombra (a lua às vezes cega). Desliguei as luzes e sentei no chão da sala. Meti a mão na testa inconformada por não ter dito nada. Houve aquele primeiro beijo em uma noite de novembro. Na calçada, sem boné, seu rosto recebia uma luz bonita que vinha do céu. Você insinuou que eu vibrava, eu gostei do teu sorriso. Depois veio a primeira trepada, algum café da manhã. Sabia que você tem bruxismo? Eu queria te contar umas coisas. Coisas como poderia ter sido legal na terra do frevo. Ou como eu gostava de você. E da sua barba. Do seu andar desengonçado. De você vestindo vermelho-PT. Era um tesão de querer não querendo. Parece que a gente transou pra cada um seguir com sua vida. Nem se olhar a gente se olha mais. Você perdeu a graça, eu muito mais. Mas é normal, a graça vive desacontecendo. Eu gostava da tua mão me explorando. Tua boca me provando. Tua barba me arranhando. 118 noites já se passaram, desde aquela de novembro.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

como eu me sinto quando... vejo Frágil ou o sentido da ruptura


A vida acontece em qualquer lugar. Até no palco.

Pode ser que as coisas estejam acontecendo em outro lugar, e não onde eu estou. Em qualquer aldeia.
Que Mato Grosso do Sul é um estado com vasta mistura cultural não é novidade. E você há de concordar que há sempre uma tentativa quase consensual em folclorizar a figura do índio. Então você coloca uma pena de papel na cabeça da criança, faz dois risquinhos de tinta guache em cada bochecha e comemora o 19 de abril. Ou diz no jornal que os guarani-kaiowá são baderneiros e suicidas. Alguém tem feito isso com esmero e dedicação e, como um vírus dos mais insistentes, tem se propagado nas redações dos periódicos e sendo quase que vulgarizado no facebook e adjacências.
Então você o vê assim como eu, na aldeia Bororó. Índios cheios de planos, com medo, sorridentes, irônicos, nostálgicos. Humanos. Então o Edson Clair nos presenteia com “Frágil ou o sentido da ruptura”. De repente apresenta-se uma verdade implícita em cada movimento, cada música e cada silêncio desse espetáculo sensível, com clichês, mas também com a maturidade da desilusão.
Se o Funk-se queria falar sobre mergulhos em abismos, então escolheu uma temática certa. Não veio só para falar de alcoolismo e suicídio em sua superficialidade midiática.
“Frágil ou o sentido da ruptura” tem uma porrada de personagens inquietos, delicados, solitários, esperançosos, revoltados e sonhadores arranhando o muro lá de casa. Cada cena do espetáculo traz similaridades e correspondências daquela angústia de qualquer ser humano que é deslocado de uma realidade para outra. Com a intenção de mostrar as consequências (boas e ruins) da ruptura, Edson Clair abriu-me um novo universo de admiração e busca, no qual o street dance, a poética videográfica e a fusão de rituais indígenas com elementos da urbanidade produziram um território único para sensações e pensares, oportunizando uma sensibilização e reflexão significativas. Oswald de Andrade dançou no túmulo quando o espetáculo foi concebido. Vi em cena um movimento antropofágico que colocou em dúvida a definição do que é a cultura do outro, porque o outro somos nós.
Não raro a gente sente um nó na garganta e “Frágil” incomoda, porque invoca a natureza humana que não é só bonita e inspiradora, mas também brutal, que exclui, pressiona, não compreende e julga. Felizmente a ruptura só faz sentido porque não pega de surpresa apenas os fracos, mas esbarra também nos fortes. E é com esses fortes que o espetáculo termina, pois é com o sorriso dos sobreviventes que a vida continua. “Frágil ou o sentido da ruptura” está aí para mostrar que apesar dos motivos que impelem esses jovens seres humanos a desistir, há muito mais pelo que (sobre)viver.
Quando presencio o trabalho do Edson Clair sinto que a vida está acontecendo exatamente onde eu estou. Mas e aí? Vamos receber goela abaixo o que o Funk-se apresentou e depois apertar a descarga ou estamos dispostos a discutir o destino dessas pulsões juvenis?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

cinco minutos


Compreendo agora, disse eu em voz baixa e como falando a uma amiga que estivesse a meu lado, compreendo porque ele me foge, por que conserva esse mistério; tudo isto não passa de uma zombaria cruel, de uma comédia, em que eu faço o papel de amante ridícula. Realmente é uma lembrança engenhosa! Lançar em um coração o germe de um amor profundo; alimentá-lo de tempos a tempos com uma palavra, excitar a imaginação pelo mistério; e depois, quando essa namorada de uma sombra, de um sonho, de uma ilusão, passear pelo salão a sua figura triste e abatida, mostrá-la a seus amigos como uma vítima imolada aos seus caprichos, e escarnecer da louca! É espirituoso! O orgulho do mais vaidoso homem deve ficar satisfeito! 

sábado, 19 de maio de 2012

o melhor ainda está por vir



Com uma voz de início de trovão, Geraldo Roca é tão comedido e receptivo que, pela primeira vez, fiz relação entre essa figura e os títulos de seus discos. O contraste entre a apresentação física do artista (tom grave, forte, vibrante, colossal) e sua gentileza e cordialidade soa como um paradoxo, assim como Música do Litoral Central e Veneno Light. Mas essa maneira prudente de se comportar resume-se à comunicação em si, porque o conteúdo de sua conversa revela um homem extremamente inquieto com o mundo ao seu redor.

Diferentemente dos músicos de sua geração, o viajante, carioca por nascimento e sul-mato-grossense por amor, não canta as ararinhas e jacarés do Pantanal. Roca gosta mesmo é de falar de loucos e solitários, de economia, religião, do mundo, quase sempre com doses nada homeopáticas de ironia e acidez. Suas músicas apresentam histórias de ambientes e das pessoas que os compõe. Ele faz questão de manter uma tal de distância poética de sua obra. “Eu não estou aqui para falar dos meus sentimentos. O artista tem que enxergar de maneira diferente aquilo que se passa diante dos seus olhos”. O verdadeiro anti-astro!

Filho de fazendeiros, Roca cresceu ouvindo chamamé, “aquele do estilo do Benites mesmo”, mas nem de longe o ritmo influenciou sua música. Começou sua carreira com o bom e velho rock’n’roll e logo se desligou de sua banda. “O negócio começou a ficar muito progressivo, chato pra caralho”, foi a explicação de quem veio ao mundo para incomodar, apesar de hoje estar conformado com o fato de que sua geração  teve a faca e o queijo na mão mas, ao invés de botar a goiabada, deu o queijo aos ratos.

Não adianta esperar pontos finais desse cara mais louco do que a média. Ele concorda que os Prata da Casa foram uma tentativa de estabelecer uma identidade cultural para o estado recém-nascido (como se Os Pioneiros nunca tivessem existido?), mas é bastante reticente quando fala em cultura e identidade. “Eu não vejo possibilidade de definir a cultura sul-mato-grossense, como a gaúcha, por exemplo, em que você coloca uma bombacha no cara e fala que aquilo é a cultura gaúcha. A cultura é uma coisa viva, como a própria identidade, está em processo, sempre em construção. Especificamente aqui no Mato Grosso do Sul, acredito que o melhor ainda está por vir”.

Avesso a conversas muito longas, Roca não quer desperdiçar tempo. Tem apenas 8 meses a mulher que o prende em casa, Beatriz. “Ela é a coisa mais linda do mundo, eu rasteeeeejo ao berço dela”. Mas antes de se despedir e ir se dedicar à filha, Geraldo suspira, como um amante que não teve sua paixão correspondida: o cenário era o do movimento Punk, daquela galera no future, e ainda assim sua trupe mantinha o positivismo. Os Velhos Amigos tinham altas aspirações com relação a tudo que acontecia no mundo, era mesmo uma geração utópica. Porém, segundo ele, uma estaca foi fincada em determinado momento. “E outras ainda serão”. Atualmente um pouco sem paciência para a música, o cara com tempestade na voz deve ter três décadas de motivos. “A gente teve que se conformar com outra coisa. A verdade é que nossas aspirações viraram nada...”.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

quem dança seus males espanta


Ali estava ele esperando apoiado no balcão, pensativo, um jeitão pacato que, sabe-se lá, esconde um sujeito esfuziante, uma personalidade colérica ou um perfil solar. Não me atrevo a arriscar. Sei que o Paulinho que eu conheço é aquele da rua, dos semáforos, das praças, dos espetáculos teatrais, do rádio, da dança. No momento em que seus olhos encontraram os meus vi o brilho doce de sempre. Então estavam abertos o sorriso e os braços. Foi o suficiente para acabar com minha dúvida de como fazer uma entrevista formal com uma pessoa cuja palavra de ordem é simplicidade.

Estou falando de ninguém mais, ninguém menos do que Paulo César da Silva Baptista, que muitos chamam, carinhosamente (ou não), de Paulo do Radinho.

O cenário do encontro foi seu local de trabalho, especificamente no térreo da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. Nunca o tinha visto com roupa mais engessada, e dessa vez não seria diferente. Camiseta branca, calça colorida, faixa amarela na cabeça e colar de miçangas brancas e vermelhas, nada de camisa ou calça social para o trabalho na biblioteca Isaías Paim.

Paulo fez questão de me levar para o terraço do prédio, afinal de contas, nosso bate papo merecia uma trilha sonora do radinho vermelho, azul e amarelo, e lá em cima, além de o som não atrapalhar ninguém, há espaço para dancar. Com fala mansa e gestos lentos, deu play no seu fiel companheiro e ao som de "I want know what love is" contou que nasceu em Uruguaiana e veio para o ainda Mato Grosso com 10 anos de idade, sem muita opção, acompanhando seus pais. A cidade era Bela Vista, que encantou o garoto pelo fato de só ter energia elétrica ate às 20h e pela possibilidade de se chupar coquinho e andar descalço o tempo todo. Uns 3 ou 4 anos mais tarde conheceu Ney Matogrosso, de quem ganhou uma cacharréu elegantérrima com a qual começou seus primeiros passos de dança, nas baladas.

Em 1975 veio para Campo Grande e ficou. Foi na cidade Morena que Paulo se formou em Geografia, tornou-se funcionário da Fundação de Cultura, casou-se, teve três filhos e divorciou-se, não necessariamente nessa ordem. Mas um desses acontecimentos foi decisivo para que ele começasse a dançar nas ruas. Quando sua esposa anunciou a separação, no natal de 1997, Paulo, que ainda enfrentava o luto pela morte do pai, ficou desiludido. Pegou seu radinho companheiro e foi chorar na rua. Para completar a emoção, recebeu uma música de um amigo radialista, que acreditava que Paulo estava comemorando a casa nova com a família. As lágrimas foram inevitáveis. O corpo acompanhava o ritmo que saía dos auto-falantes e o espírito conversava com deus e pedia forças. Um grupo de adolescentes presenciou a cena, alguns riam e outros aplaudiam o espetáculo de dor. E foi nesse momento que Paulinho decidiu que iria dançar nas ruas: “Era como se o sorriso deles amenizasse minha dor. Eu iria aproveitar os sorrisos e aplausos para transformar meu sofrimento. Hoje sou eu que levo alegria às pessoas”.

Com relação a sua idade, Paulo logo afirma que possui três. Não três anos, obviamente, mas três idades diferentes. “Uma psicológica, que é entre 18 e 20 anos, uma física, que é a de verdade, e a outra é 23 anos, minha nova idade desde o acidente”. A noite na qual viraria mais uma estatística de trânsito, Paulo do Radinho considera como seu renascimento. “Eu estava andando de moto e uma camionete me atropelou. Fiquei em coma por 40 dias e sem andar por oito meses”. Depois disso é bem difícil convencer este homem a andar de carro ou de ônibus. Seu maior prazer é poder se locomover com as próprias pernas e de preferência ouvindo seu rádio.

E o que Paulo mais ouve nesse aparelhinho que já ficou famoso pelas ruas de Campão? "Ah, eu adoro demais o Raulzito, demais mesmo. Mas isso eu deixo para ouvir em casa, na rua eu boto mais músicas de novela, pro pessoal não reclamar e aproveitar comigo". De fato, é muito fácil se envolver com sua energia, bastou um momento de bobeira e até eu estava dançando "Don't Cha" com ele. Paulinho é puro movimento!

Sem nenhuma cerimônia, perguntei qual era sua opinião sobre as pessoas que pensam que ele é bêbado ou louco. "Eu acho é muita graça, a felicidade alheia incomoda". Paulinho nunca bebeu, seu único vício era o cigarro, abandonado há quase três meses, apenas à base de água, cravo e muita conversa com deus. "Claro, como é que eu vou me apresentar para as crianças? Tenho que dar bom exemplo".

Essa figura alto astral não tem uma receita para a felicidade. A sua deu certo porque, para ele, além de estar bem, é preciso querer que o próximo esteja bem. Sem muita vontade para grande luxos, Paulo do Radinho acredita muito em sua opinião e acha que o maior exemplo que dá para seus filhos - que não gostam que o pai dance nas ruas - é autenticidade. Como já dizia Conzaguinha, "viver e não ter a vergonha de ser feliz".

abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012


O que seria de nós sem os artistas pra embriagar de fantasias nossas vidas?! Artistas são doces, bravos, sérios, calmos, tristes, alegres, meigos, chorosos, amorosos, cautelosos...representam tudo e muito mais!


quarta-feira, 28 de março de 2012

o câncer, a sinuca e o jornalismo

“Dizem que a diferença entre deus e os jornalistas é que deus jamais pensou que era jornalista”. O jornalista Carlos Brickmann usou essas palavras em alusão à mania que seus colegas de profissão têm de julgar e condenar impiedosamente e de sentirem-se donos da verdade. Essa frase alcançou meus olhos de maneira diferente.

Minha pauta era divulgar o trabalho desenvolvido pela AACC-MS (Associação dos Amigos das Crianças com Câncer). Passei quase três dias me preparando psicologicamente, pois na minha cabeça tão cheia de modelos e fórmulas, ir até a Associação era sinônimo de chorar de pena das crianças e ficar com o coração partido pelas mães. Imaginem só um monte de pessoinhas carecas, magras, com olheiras e curativos, tomadas pelo baixo astral, debaixo das asas de mães cansadas e desesperadas.

Mas eu não podia chorar. Se meu papel era noticiar, o mínimo a mais que poderia fazer era dar força às crianças e às mães. Vesti minha armadura, fiz cara de forte, encarnei a profissional e fui. Até alguns minutos antes de entrar na sede AACC eu me sentia deus. Que pessoa linda eu era por ter escolhido colocar essa instituição no jornal. Eu poderia pedir para que a população doasse os materiais de que eles precisam, para que se voluntariassem e pronto. Estaria tudo resolvido. Nenhuma criança a mais morreria de câncer. Se duvidar, com essa minha atitude tão nobre, nenhuma outra criança sequer desenvolveria câncer. 

Eu não era deus. Elas não eram baixo astral. Suas mães não estavam pessimistas. E o fato de eu escrever para um veículo de comunicação sensacionalista e de baixa popularidade não ia fazer diferença nenhuma para ninguém. Nem para mim, porque ser repórter implica em aceitar uma distância enorme entre aquilo que o interesse de algum político ou empresa julga que é necessário informar e aquilo que tenho vontade de informar. Por isso uso o espaço virtual (antes que censurem isso também) para escrever em primeira pessoa, relatar sensações, desabafar, reclamar do preço do chocolate e o que mais me der na telha.

Quando entrei na AACC, trompei com um sorriso enorme na recepção. Já viram isso? Uma recepção ser cuidada por um sorriso? Claro que estou exagerando, mas a moça por trás do sorriso chama muito a atenção. Aline Santa Cruz, 22 anos, há 8 venceu a leucemia. A boa filha à casa tornou. Depois de ser tratada durante dois anos e meio na instituição, hoje Aline é mais do que uma funcionária, é um bom exemplo. Humildemente, acho que o mundo não precisa de heróis ou ídolos, mas sim de bons exemplos. De repente, vendo aquela moça com enormes olhos castanhos achando graça da vida, o câncer me pareceu menos grave. Claro que nem todos têm o mesmo destino de Aline, mas acredito absolutamente no poder do positivismo. Aquela jovem inspira mães e crianças com câncer. Ver um bom exemplo e acreditar que se vai ficar bem, com certeza, ajuda na recuperação. Alguém já deve ter feito algum estudo sobre o poder da mente e tudo o mais. Procura aí no google.

Ariel, o danadinho
A responsável pela comunicação da AACC também é a guia de turismo do ambiente. Larissa me mostrou cada uma das salas da administração, de cursos, de informática, de artes. E de repente paramos na porta do pátio que dava para as instalações onde ficam as crianças. Como eu estava ansiosa por tocar em uma delas, para saber que elas existem. Mas não tive tempo para muita poesia. Ariel, um garoto muito simpático, nada magrinho e com cabelos suficientes para disfarçar que tinha câncer, me desafiou em uma partida de pebolim. Profissional que sou na mesa de futebol, aceitei de prontidão. Logo vi que, para manter minha reputação, era melhor não dar mole para o menino de uns 8 ou 9 anos. Mas que diabos! Esse menino não está doente? Que que tem que ficar aqui fazendo gol em mim? Também não quis mais brincar e recusei o convite para a mesa de sinuca. Não porque eu estivesse com medo de perder, óbvio, mas porque eu precisava tirar fotos e entrevistar algumas fontes.

Fontes o escambau! Minha vontade era de conversar com pessoas. Com a Zumilda, mamãe do Lucas, com a Ana Clara, com a tia que estava fazendo bolo. Só os adultos me deram atenção, nenhuma criança quis conversar com a tia aqui. O Ariel estava ressentido porque recusei a sinuca, o Lucas estava com a boca cheia de pipoca e a Ana Clara estava ocupada pintando suas unhas com esmalte rosa. Um tapa na cara da minha vaidade. A pequena tem no máximo 5 anos e suas unhas são infinitamente mais bem cuidadas do que as minhas. O que a gente pergunta para crianças como essas? Qual seu ciclo de quimioterapias? Você tem esperança de viver muito tempo ainda? Qual foi sua última produção na aula de artes? Em que bar você treina sinuca, porra?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

pequenas histórias não saem nos grandes jornais


Kayky não precisou de anestesia.
Aquele dente branquinho cansou de ser zoado pelos amigos naquela boca certa, aproveitou o menino bobo de encantamento com os objetos, abriu a janela e pulou pro FiTO.
Há quem diga que o viu brincando de ser cavaleiro, outros afirmam que se afogou em uma latinha de coca-cola. 
Kayky nunca mais o viu.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

tinha um facão no meio do caminho, no meio do caminho tinha um guarani

Então eu me lembrei de como foi difícil fazer aquela edição nº 69 do Projétil. Não porque me deixaram ser editora, nem porque era fechamento de semestre, mas porque nós (alguns de nós) queríamos nadar contra a corrente. Nós queríamos provar pra deus e o mundo que era possível falar positivamente sobre índio. Que não precisava ser morte, desnutrição, assassinato, suicídio, conflitos por terras. E como não poderíamos ignorar a existência de todos esses aspectos negativos, dividimos o jornal ao meio. O 69 ajudou, metade do jornal deveria ser virada de cabeça para baixo pra poder ser lida normalmente. Eu fazia questão de escrever na parte boa. Acabei ficando com duas matérias positivas e uma negativa.
O difícil foi educar a paixão, encontrar muitos argumentos que valorizassem a cultura indígena, que explicassem de maneira racional a pauta. A notícia não poderia ser escrita apenas porque algum dos repórteres tinha sentimento pelo assunto. Nós encontramos os argumentos, enfiamos como pudemos dentro dos valores notícias que a faculdade nos ensinou. Mas no meio do caminho tinha um facão.
Ademir Romeiro era um dos personagens do nosso jornal. Aos 19 anos, ele era um dos melhores alunos do curso de cinema que o Pontão de Cultura Guaicuru realizou no ano passado. Cursava o segundo ano de Matemática da UEMS de Amambai. A Camila, uma de nossas repórteres, fazia o curso do Pontão junto com Ademir. Eram amigos. E agora tudo quanto for escrito sobre ele deverá ser no passado. Ademir já não filma “com muito respeito a imagem das pessoas”, não toma coca-cola nem respira. Sua vida foi tirada com um facão enquanto ele defendia um amigo. Eu estava ao lado da Camila quando ela recebeu a notícia. Eu senti que, mais do que uma fonte, ela perdia um amigo.
Mas que diabos! Justo uma das flores que emprestaria seu perfume pro lado bonito e otimista do jornal! Justo um dos cineastas mais talentosos! Nós, acadêmicos, lutando pra provar pro editor de rural do Correio do Estado, Maurício Hugo, que ele estava errado quando disse que “só tem coisa ruim pra falar de índio, por isso que a gente nem coloca muito no jornal”, e uma paulada dessa nos acerta.
O que eu quero dizer com isso tudo é que depois do Ademir, depois da minha visita de três dias na aldeia Bororó, depois desse jornal e dessa ironia do destino, cada índio que morre aqui no estado é um amigo meu. Pelo descaso, pela falta de vontade do poder público em resolver, pela irresponsabilidade da imprensa. Os jornalistas, coitados, se habituam tanto a dar certo tipo de notícias que às vezes parece que não percebem que estão falando de seres humanos. Hoje, em um banca de um TCC que falava sobre a violência doméstica, uma das autoras deixou escapar que depois de algumas entrevistas ela já não se surpreendia com os casos, ela havia se acostumado. “Fulana apanhou do marido, está com o braço quebrado e três pinos, só isso”. Só isso. Ela só apanhou um pouquinho. E o que são três pinos, não é mesmo, um bracinho quebrado? Vamos superar isso minha gente.
Eu não consigo pensar assim. Ainda não. E talvez por isso eu ainda vou sofrer e apanhar muito do jornalismo. Eu não vou me habituar com a violência contra qualquer minoria. Não vou achar normal uma mulher apanhar ou sofrer violência psicológica, não vou achar normal um índio que se suicidou ou foi assassinado.
Essa história toda do Nísio me deixa com náuseas. Quase consigo imaginar os jornalistas apenas mudando o nome do assassinado e algumas palavras de matérias antigas, com uma frieza, com uma mecanicidade. E aí eu penso no filho dele, penso em todas as pessoas que o tinham como guia e como exemplo, como força, como defensor, como amigo. Parece que depois de algum tempo de profissão a gente tem que deixar de reparar na humanidade.  Eu não quero que o Nísio seja apenas mais um nas estatísticas. Como foi o Ademir, como foi a Lurdivane, e tantos outros (Marçal, Daniel, Sidney, Cário, Djalma, Celso, Andilo, Jeremias, Geraldo, Catalino, Jorge, Antônio...). Mas não sei o que EU posso fazer pra que não seja. Por enquanto eu só desabafo mimimi. E aceito sugestões.
(abra a imagem em uma nova guia e dê zoom)