sexta-feira, 20 de abril de 2018

notas para alfredo III

sobre tudo aquilo que cabe em quatro segundos.
quanto tempo será que levei para repousar meus olhos em você? deslizando nos pequenos detalhes, na mania de arrumar o cabelo atrás da orelha mesmo sem ter nada pra arrumar? quanto tempo demorei repousando meus olhos nos seus? derrubei aquele objeto ou aquele objeto me derrubou? você pegou, alfredo, e me entregou como se entregasse um segredo, o coração. um cuidado, um carinho, uma gentileza e uma demora desnecessários. um. toque. de. mão. olhos nos olhos eu digo obrigada. você apenas sorri. e me invade. então desvio meu foco desses olhos castanhos que lembram montanhas vistas de cima. procuro qualquer pétala de flor pra me agarrar e não cair no precipício. não encontro. nietzsche me traz de volta. nietzsche é o cachorro monstruoso com abraço violento. não sei se tenho mais medo dele ou do abismo dentro dos seus olhos, alfredo. tiiiiiia! uma vozinha me chama e me leva pra longe dali. fui salva. pelo menos por aquela noite.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

notas para alfredo II

olhei um último momento enquanto você atravessava entre os carros de volta em direção ao bar. a postura denunciando uma tristeza por não conseguir corresponder tudo que eu oferecia. você parece forte, alfredo, porque não chora, não move os músculos da face entregando qualquer sentimento negativo que seja. coisa de quem já se machucou muito na vida, penso eu. mas, minutos antes, sua respiração entregava sua decepção, comigo e consigo mesmo. seu olhar denunciava a tristeza por ter que deixar partir alguém com quem você estava disposto a caminhar de mãos dadas. que mais você poderia fazer? que mais poderia oferecer naquele momento? maldito timing!!
nunca acreditei nessa bobagem de momentos diferentes, de certo porque nunca tinha acontecido comigo. ou talvez tenha, mas não com alguém com quem eu me importasse tanto! parei o carro em alguma rua bem movimentada e deixei os pensamentos fluírem junto com as lágrimas, assim salgados mesmo, desorganizados. e mais tarde tentaria traduzir em palavras.
talvez se tivéssemos nos conhecido antes das pessoas que nos destruíram tanto! antes de definirmos nossos fundamentos e construirmos muralhas de defesa tão altas, tão fortes e concretas, hein alfredo... ora essa, se são justamente as histórias que vivemos, os livros que lemos, as viagens que fizemos e as pessoas que amamos que nos fazem ser exatamente o que somos hoje, esse pensamento não faz muito sentido, pois eu te desejo por você ser assim mesmo como é hoje. o problema é que o timing errado não vem com uma plaquinha de alerta, ele só se manifesta depois que a gente pensou estar na mesma vibe que o outro e resolveu se entregar. quando já gostamos da pessoa, já achamos até engraçadas as diferenças entre nós.
mas não dá pra esquecer que tudo que passamos antes de nos conhecermos influenciam totalmente no que somos hoje e na intensidade com a qual vivemos e nos entregamos. é mais ou menos assim: nós dois chegamos no mesmo lugar, mas um de nós caminhou por um atalho no bosque, respirou ar puro, parou pra nadar numa cachoeira e colheu até algumas flores pelo caminho; já o outro veio de uma jornada pelo deserto, perambulando por tempestades de areia, passando frio e calor extremos, chegou àquele lugar com sede, esgotado. é óbvio que a maneira como cada um vai escolher continuar a partir daquele ponto de encontro é diferente.
ligo o carro e sigo o caminho de volta pra casa. ainda tem o fator autoconhecimento, autoproteção, autoocaralhoaquatro que você precisa fortalecer. venho de um momento de autofelicidade e de um eu tão preenchido que pra mim é fácil transbordar. então é preciso cuidado pra que esse transbordamento não te afogue.
ah, alfredo! odeio esse egoísmo no qual você se encontra porque vejo muito sentido nele e entendo perfeitamente. não tem como ser diferente. é feito da mesma matéria prima racional que constitui meu medo de me perder de novo, de me envolver em uma relação onde eu doo tanto e recebo pouco de volta. de transbordar tanto que outra vez eu fique cheia de vazios. por isso querer abandonar uma história antes que ela efetivamente aconteça, pra evitar mágoas lá pra frente. pra ficar com essa sensação deliciosa de que mesmo com nosso timing errado e nossas tantas diferenças, você me ofereceu, bonitamente, tudo que você podia nesse momento, você fez o que pode e você foi o melhor encontro que me aconteceu na última década, o subaquinho mais gostoso de me aninhar. eu também tentei bastante ser compreensiva e esperar você poder se entregar mais, você estar tão fortalecido a ponto de poder abrir as janelas do seu coração e deixar minha ventania entrar sem tirar os móveis do lugar. ou até tirar, mas de maneira que você consiga arrumar tudo de volta pro lugar e sem exaustão. mas essa espera cheia de angústia não é paciência, é terrorismo. pois me entristece e isso acaba respingando em você, um alfredo cheio de complicações pra resolver, sem merecer mais preocupações pra te preencher.
me relacionar com você é me deparar com uma cordilheira, e lembra quando te falei sobre aclimatação? às vezes, pra chegar no cume de uma montanha, a gente precisa retroceder um pouco pra recuperar o fôlego e continuar. então talvez seja melhor calarmos nossas distâncias pra que o peito tenha espaço suficiente pra respirar novamente. será que sem eu te atormentando e mostrando meus desagrados você não consegue se resolver melhor, sem distrações? será que se ficarmos sentadinhos, cada um no seu canto, apesar da saudade, algum dia nossos timings vão coincidir? ou será que vamos apenas perceber que estamos bem sem o outro e encontrar outra pessoa com o mesmo timing? já pensou, alfredo? será que é possível influenciar por conta própria nessa porra desse timing? será que a gente consegue de verdade encontrar um equilíbrio onde eu espere sem me angustiar e você take your time em paz, sem ter que se preocupar com as minhas chateações internas?
será que é possível, deuses, astros, planetas, elementos da natureza, diabos, que esses dois arianos consigam parar de pensar tanto lá na frente?????? que você consiga parar de pisar no freio pelo medo futuro de eu terminar com você e que eu consiga parar de querer desistir pelo medo futuro de você terminar comigo e eu ter me oferecido por inteira e você não? será que a gente consegue parar de prever o destino final pra curtir mais a caminhada juntos, mas juntos mesmo, de verdade? parar de ter medo de se sentir lesado?
quem já se fudeu em relacionamento realmente cansa de ficar quebrando a cara, mas, acredite, a cicatrização começa a ser cada vez mais rápida e as feridas menos profundas. e isso não acontece porque a gente se poupa mais ou se entrega menos, mas porque o couro vai ficando curtido mesmo, vai ficando forte, calejado. os finais doem cada vez menos, mas, se feitas com honestidade e entrega, as caminhadas podem ser cada vez mais legais porque mais maduras, mais envolventes, mais conscientes e mais sadias.
chego em casa e deito na cama, você não me sai da cabeça. escrevo pra ver se o sono chega, escrevo pra mais tarde decidir se te envio ou não. escrevo pra tentar ler de fora, imaginar um conto envolvendo outras duas pessoas quaisquer e, quem, sabe, encontrar um desfecho mais próximo possível daquelas conclusões bonitnihas de fábulas infantis. pra ver se tiro alguma lição. pra ver se, externando os fantasmas, tiro também de dentro de mim essa vontade absurda de te ver, te cheirar, te tocar, te chupar, respirar no mesmo ritmo que o seu.
percebo, enfim, que escrevi em vão.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

notas para alfredo I

quantas vezes você me disse, alfredo, o quanto temia que eu visse em você alguém que você não é.
perdi a conta das ocasiões em que levei bronca porque te fazia elogios e ressaltava suas qualidades desmedidamente.
o que você nunca percebeu, querido alfredo, é que eu sou apaixonada justamente por sua imperfeição, por aqueles defeitinhos que nem é necessário elencar.
acho tão bonito como você sobreviveu àqueles tombos, como conseguiu se levantar depois que perdeu a confiança, no outro e em si mesmo.
sua teimosia, seu sorriso mascarando a dor, sua ironia nos momentos mais inoportunos. essa mania de esquecer que o mundo não gira a seu redor!
saber que você continua na luta, apesar de todos os seus erros, essa maldita culpa que você sempre colocou entre mim e você, me impedindo de te ganhar devagarinho.
tudo isso é de uma tal boniteza, alfredo! me fazem ficar encantada com o quão desajeitadamente humano pode ser meu objeto de amor.
são nossas imperfeições e erros que nos aproximam, alfredo meu. por causa deles é que podemos nos olhar bem de pertinho e sentir vontade de despertar o que de melhor podemos ser.
quando nos despimos em pêlo, suor, medos e fragilizadades é quando mais te amo, alfredo! eu não suportaria conviver com alguém perfeito.
errar na pimenta significa que você se dispôs a cozinhar pra mim. se atrasar e ficar ao lado de fora do show significa que aceitou meu convite.
se sou violenta nos elogios, alfredo, é por medo de entregar por aí seus defeitos e despertar a curiosidade de outras amantes.
não vou entregar o ouro! tudo que você tem de pior, eu quero pra mim.
ainda te espero, todo imperfeito. volta?

prefácio

é provisório. não importa o que. repito comigo em qualquer dia que nasça, torto ou feliz demais. é provisório como tudo que respira.

domingo, 24 de novembro de 2013

movimento artístico religioso*

Admirável mundo novo. Para alguns é o nome de um livro. Para mim é uma mistura de tambores, ritmo, natureza, mitologia, ritual e dança: Candomblé. Conheci a religião de matriz africana ainda no primeiro ano de faculdade. Eu tinha todos os medos e preconceitos que a sociedade queria que eu tivesse. Mas, por curiosidade (ou profissionalismo), resolvi conhecer. Deparei-me com um espetáculo!

Cada orixá possui um figurino mais lindo que o outro, cada um deles possui uma história e uma função, uma música e uma batida perfeita. Eles usam a música e os movimentos para contar sua trajetória, mostrar seu caráter e assim, com o corpo daqueles que gentilmente os recebem, criam água, vento, peixes. Caçam, amam, lutam.

Meu preferido é o Obaluaê. Senhor da terra, da cura de doenças, da passagem de um plano para outro. Ele dança com o corpo coberto de palha da costa. Algumas lendas dizem que é para esconder suas chagas de varíola. Eu acredito em sua beleza estonteante, e aposto que a palha só está ali porque não se pode olhar de frente o próprio brilho do sol. Seu grito é tenebroso e sombrio, mas basta um abraço neste senhor para sentir sua vibração bondosa e paterna. E como vibra!!!

Suas coreografias estão longe de ser enérgicas como as de Ogum ou charmosas como de Oxum. Obaluaê é mais contido, calmo, sereno, como se calculasse cada um de seus movimentos, reflexos, talvez, de toda a rejeição que sofreu. Foi abandonado por sua mãe, Nanã, devido à sua doença, e já foi impedido de entrar em uma festa onde dançavam todos os orixás. Sua postura é levemente inclinada para frente, como se tentasse esconder suas feridas. Curvado como um velho, parece que dança cavando a terra. Apesar de certa lentidão durante todos os seus atos, a apoteose de sua apresentação acontece quando ele começa a pular com uma perna só (a outra permanece dobrada) cruzando os braços em xis acima da cabeça, único momento em que sua coluna fica totalmente ereta. Ninguém nunca me explicou o que significa esse movimento, então eu finjo que é manifestação de sua felicidade quando Iansã transformou suas feridas em pipoca e Obaluaê se tornou um belo homem. Mas é só uma hipótese.

Estou longe de entender o que significa cada dança dos orixás. Porém, tenho certeza de que nenhum de seus movimentos é em vão. O corpo fala, seus gestos explicam suas histórias. Com essa imagem gostaria de despertar a curiosidade dos amantes da dança para acompanharem uma festa de Candomblé. É música e energia a noite inteira! É linda a relação do Candomblé com a dança. Sem dança não existe essa religião. Só não se assuste se tudo começar a ficar sombrio e embaçado em volta do Obaluaê. O brilho é todo e só dele quando está presente. Também aviso que é quase impossível ficar parado, porque o som dos atabaques entra no sangue como que por difusão. O samba só pode ter vindo daí, só pode!

Enquanto a dança clássica ocidental exige pontas como que para alcançar um outro mundo, o orixá dança descalço, a fim de absorver toda a energia que emana da terra. Os pés nus denunciam uma vontade de viver a vida agora, exatamente naquele lugar. Atotô!

* contribuição para o maravilhoso espaço http://forummovimente.blogspot.com.br/ (em dez/2011)

quinta-feira, 14 de março de 2013

organizei o tempo que restou

Ele me beijou e saiu. Fui até a sacada. Lá embaixo o motoqueiro ia pela sombra (a lua às vezes cega). Desliguei as luzes e sentei no chão da sala. Meti a mão na testa inconformada por não ter dito nada. Houve aquele primeiro beijo em uma noite de novembro. Na calçada, sem boné, seu rosto recebia uma luz bonita que vinha do céu. Você insinuou que eu vibrava, eu gostei do teu sorriso. Depois veio a primeira trepada, algum café da manhã. Sabia que você tem bruxismo? Eu queria te contar umas coisas. Coisas como poderia ter sido legal na terra do frevo. Ou como eu gostava de você. E da sua barba. Do seu andar desengonçado. De você vestindo vermelho-PT. Era um tesão de querer não querendo. Parece que a gente transou pra cada um seguir com sua vida. Nem se olhar a gente se olha mais. Você perdeu a graça, eu muito mais. Mas é normal, a graça vive desacontecendo. Eu gostava da tua mão me explorando. Tua boca me provando. Tua barba me arranhando. 118 noites já se passaram, desde aquela de novembro.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

como eu me sinto quando... vejo Frágil ou o sentido da ruptura


A vida acontece em qualquer lugar. Até no palco.

Pode ser que as coisas estejam acontecendo em outro lugar, e não onde eu estou. Em qualquer aldeia.
Que Mato Grosso do Sul é um estado com vasta mistura cultural não é novidade. E você há de concordar que há sempre uma tentativa quase consensual em folclorizar a figura do índio. Então você coloca uma pena de papel na cabeça da criança, faz dois risquinhos de tinta guache em cada bochecha e comemora o 19 de abril. Ou diz no jornal que os guarani-kaiowá são baderneiros e suicidas. Alguém tem feito isso com esmero e dedicação e, como um vírus dos mais insistentes, tem se propagado nas redações dos periódicos e sendo quase que vulgarizado no facebook e adjacências.
Então você o vê assim como eu, na aldeia Bororó. Índios cheios de planos, com medo, sorridentes, irônicos, nostálgicos. Humanos. Então o Edson Clair nos presenteia com “Frágil ou o sentido da ruptura”. De repente apresenta-se uma verdade implícita em cada movimento, cada música e cada silêncio desse espetáculo sensível, com clichês, mas também com a maturidade da desilusão.
Se o Funk-se queria falar sobre mergulhos em abismos, então escolheu uma temática certa. Não veio só para falar de alcoolismo e suicídio em sua superficialidade midiática.
“Frágil ou o sentido da ruptura” tem uma porrada de personagens inquietos, delicados, solitários, esperançosos, revoltados e sonhadores arranhando o muro lá de casa. Cada cena do espetáculo traz similaridades e correspondências daquela angústia de qualquer ser humano que é deslocado de uma realidade para outra. Com a intenção de mostrar as consequências (boas e ruins) da ruptura, Edson Clair abriu-me um novo universo de admiração e busca, no qual o street dance, a poética videográfica e a fusão de rituais indígenas com elementos da urbanidade produziram um território único para sensações e pensares, oportunizando uma sensibilização e reflexão significativas. Oswald de Andrade dançou no túmulo quando o espetáculo foi concebido. Vi em cena um movimento antropofágico que colocou em dúvida a definição do que é a cultura do outro, porque o outro somos nós.
Não raro a gente sente um nó na garganta e “Frágil” incomoda, porque invoca a natureza humana que não é só bonita e inspiradora, mas também brutal, que exclui, pressiona, não compreende e julga. Felizmente a ruptura só faz sentido porque não pega de surpresa apenas os fracos, mas esbarra também nos fortes. E é com esses fortes que o espetáculo termina, pois é com o sorriso dos sobreviventes que a vida continua. “Frágil ou o sentido da ruptura” está aí para mostrar que apesar dos motivos que impelem esses jovens seres humanos a desistir, há muito mais pelo que (sobre)viver.
Quando presencio o trabalho do Edson Clair sinto que a vida está acontecendo exatamente onde eu estou. Mas e aí? Vamos receber goela abaixo o que o Funk-se apresentou e depois apertar a descarga ou estamos dispostos a discutir o destino dessas pulsões juvenis?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

cinco minutos


Compreendo agora, disse eu em voz baixa e como falando a uma amiga que estivesse a meu lado, compreendo porque ele me foge, por que conserva esse mistério; tudo isto não passa de uma zombaria cruel, de uma comédia, em que eu faço o papel de amante ridícula. Realmente é uma lembrança engenhosa! Lançar em um coração o germe de um amor profundo; alimentá-lo de tempos a tempos com uma palavra, excitar a imaginação pelo mistério; e depois, quando essa namorada de uma sombra, de um sonho, de uma ilusão, passear pelo salão a sua figura triste e abatida, mostrá-la a seus amigos como uma vítima imolada aos seus caprichos, e escarnecer da louca! É espirituoso! O orgulho do mais vaidoso homem deve ficar satisfeito!
(José de Alencar)

sábado, 19 de maio de 2012

o melhor ainda está por vir



Com uma voz de início de trovão, Geraldo Roca é tão comedido e receptivo que, pela primeira vez, fiz relação entre essa figura e os títulos de seus discos. O contraste entre a apresentação física do artista (tom grave, forte, vibrante, colossal) e sua gentileza e cordialidade soa como um paradoxo, assim como Música do Litoral Central e Veneno Light. Mas essa maneira prudente de se comportar resume-se à comunicação em si, porque o conteúdo de sua conversa revela um homem extremamente inquieto com o mundo ao seu redor.

Diferentemente dos músicos de sua geração, o viajante, carioca por nascimento e sul-mato-grossense por amor, não canta as ararinhas e jacarés do Pantanal. Roca gosta mesmo é de falar de loucos e solitários, de economia, religião, do mundo, quase sempre com doses nada homeopáticas de ironia e acidez. Suas músicas apresentam histórias de ambientes e das pessoas que os compõe. Ele faz questão de manter uma tal de distância poética de sua obra. “Eu não estou aqui para falar dos meus sentimentos. O artista tem que enxergar de maneira diferente aquilo que se passa diante dos seus olhos”. O verdadeiro anti-astro!

Filho de fazendeiros, Roca cresceu ouvindo chamamé, “aquele do estilo do Benites mesmo”, mas nem de longe o ritmo influenciou sua música. Começou sua carreira com o bom e velho rock’n’roll e logo se desligou de sua banda. “O negócio começou a ficar muito progressivo, chato pra caralho”, foi a explicação de quem veio ao mundo para incomodar, apesar de hoje estar conformado com o fato de que sua geração  teve a faca e o queijo na mão mas, ao invés de botar a goiabada, deu o queijo aos ratos.

Não adianta esperar pontos finais desse cara mais louco do que a média. Ele concorda que os Prata da Casa foram uma tentativa de estabelecer uma identidade cultural para o estado recém-nascido (como se Os Pioneiros nunca tivessem existido?), mas é bastante reticente quando fala em cultura e identidade. “Eu não vejo possibilidade de definir a cultura sul-mato-grossense, como a gaúcha, por exemplo, em que você coloca uma bombacha no cara e fala que aquilo é a cultura gaúcha. A cultura é uma coisa viva, como a própria identidade, está em processo, sempre em construção. Especificamente aqui no Mato Grosso do Sul, acredito que o melhor ainda está por vir”.

Avesso a conversas muito longas, Roca não quer desperdiçar tempo. Tem apenas 8 meses a mulher que o prende em casa, Beatriz. “Ela é a coisa mais linda do mundo, eu rasteeeeejo ao berço dela”. Mas antes de se despedir e ir se dedicar à filha, Geraldo suspira, como um amante que não teve sua paixão correspondida: o cenário era o do movimento Punk, daquela galera no future, e ainda assim sua trupe mantinha o positivismo. Os Velhos Amigos tinham altas aspirações com relação a tudo que acontecia no mundo, era mesmo uma geração utópica. Porém, segundo ele, uma estaca foi fincada em determinado momento. “E outras ainda serão”. Atualmente um pouco sem paciência para a música, o cara com tempestade na voz deve ter três décadas de motivos. “A gente teve que se conformar com outra coisa. A verdade é que nossas aspirações viraram nada...”.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

quem dança seus males espanta


Ali estava ele esperando apoiado no balcão, pensativo, um jeitão pacato que, sabe-se lá, esconde um sujeito esfuziante, uma personalidade colérica ou um perfil solar. Não me atrevo a arriscar. Sei que o Paulinho que eu conheço é aquele da rua, dos semáforos, das praças, dos espetáculos teatrais, do rádio, da dança. No momento em que seus olhos encontraram os meus vi o brilho doce de sempre. Então estavam abertos o sorriso e os braços. Foi o suficiente para acabar com minha dúvida de como fazer uma entrevista formal com uma pessoa cuja palavra de ordem é simplicidade.

Estou falando de ninguém mais, ninguém menos do que Paulo César da Silva Baptista, que muitos chamam, carinhosamente (ou não), de Paulo do Radinho.

O cenário do encontro foi seu local de trabalho, especificamente no térreo da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. Nunca o tinha visto com roupa mais engessada, e dessa vez não seria diferente. Camiseta branca, calça colorida, faixa amarela na cabeça e colar de miçangas brancas e vermelhas, nada de camisa ou calça social para o trabalho na biblioteca Isaías Paim.

Paulo fez questão de me levar para o terraço do prédio, afinal de contas, nosso bate papo merecia uma trilha sonora do radinho vermelho, azul e amarelo, e lá em cima, além de o som não atrapalhar ninguém, há espaço para dancar. Com fala mansa e gestos lentos, deu play no seu fiel companheiro e ao som de "I want know what love is" contou que nasceu em Uruguaiana e veio para o ainda Mato Grosso com 10 anos de idade, sem muita opção, acompanhando seus pais. A cidade era Bela Vista, que encantou o garoto pelo fato de só ter energia elétrica ate às 20h e pela possibilidade de se chupar coquinho e andar descalço o tempo todo. Uns 3 ou 4 anos mais tarde conheceu Ney Matogrosso, de quem ganhou uma cacharréu elegantérrima com a qual começou seus primeiros passos de dança, nas baladas.

Em 1975 veio para Campo Grande e ficou. Foi na cidade Morena que Paulo se formou em Geografia, tornou-se funcionário da Fundação de Cultura, casou-se, teve três filhos e divorciou-se, não necessariamente nessa ordem. Mas um desses acontecimentos foi decisivo para que ele começasse a dançar nas ruas. Quando sua esposa anunciou a separação, no natal de 1997, Paulo, que ainda enfrentava o luto pela morte do pai, ficou desiludido. Pegou seu radinho companheiro e foi chorar na rua. Para completar a emoção, recebeu uma música de um amigo radialista, que acreditava que Paulo estava comemorando a casa nova com a família. As lágrimas foram inevitáveis. O corpo acompanhava o ritmo que saía dos auto-falantes e o espírito conversava com deus e pedia forças. Um grupo de adolescentes presenciou a cena, alguns riam e outros aplaudiam o espetáculo de dor. E foi nesse momento que Paulinho decidiu que iria dançar nas ruas: “Era como se o sorriso deles amenizasse minha dor. Eu iria aproveitar os sorrisos e aplausos para transformar meu sofrimento. Hoje sou eu que levo alegria às pessoas”.

Com relação a sua idade, Paulo logo afirma que possui três. Não três anos, obviamente, mas três idades diferentes. “Uma psicológica, que é entre 18 e 20 anos, uma física, que é a de verdade, e a outra é 23 anos, minha nova idade desde o acidente”. A noite na qual viraria mais uma estatística de trânsito, Paulo do Radinho considera como seu renascimento. “Eu estava andando de moto e uma camionete me atropelou. Fiquei em coma por 40 dias e sem andar por oito meses”. Depois disso é bem difícil convencer este homem a andar de carro ou de ônibus. Seu maior prazer é poder se locomover com as próprias pernas e de preferência ouvindo seu rádio.

E o que Paulo mais ouve nesse aparelhinho que já ficou famoso pelas ruas de Campão? "Ah, eu adoro demais o Raulzito, demais mesmo. Mas isso eu deixo para ouvir em casa, na rua eu boto mais músicas de novela, pro pessoal não reclamar e aproveitar comigo". De fato, é muito fácil se envolver com sua energia, bastou um momento de bobeira e até eu estava dançando "Don't Cha" com ele. Paulinho é puro movimento!

Sem nenhuma cerimônia, perguntei qual era sua opinião sobre as pessoas que pensam que ele é bêbado ou louco. "Eu acho é muita graça, a felicidade alheia incomoda". Paulinho nunca bebeu, seu único vício era o cigarro, abandonado há quase três meses, apenas à base de água, cravo e muita conversa com deus. "Claro, como é que eu vou me apresentar para as crianças? Tenho que dar bom exemplo".

Essa figura alto astral não tem uma receita para a felicidade. A sua deu certo porque, para ele, além de estar bem, é preciso querer que o próximo esteja bem. Sem muita vontade para grande luxos, Paulo do Radinho acredita muito em sua opinião e acha que o maior exemplo que dá para seus filhos - que não gostam que o pai dance nas ruas - é autenticidade. Como já dizia Conzaguinha, "viver e não ter a vergonha de ser feliz".

abril de 2012